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domingo, 21 de março de 2010

Capra: Proposta de risco

Para trabalhar em Brasília, Capra fez uma proposta de risco: um mês sem salário e depois o engenheiro avaliaria o resultado. Trinta dias depois, Donald analisou o andamento das obras da Quadra 103 Sul, sob responsabilidade de Capra. Gostou do que viu e perguntou de quanto seria o salário. Capra pediu 12 mil cruzeiros, Donald pagou 14 mil. Era o ano de 1957 e o italiano desembarcara na futura capital do País em um avião DC-10.

Ao mesmo tempo em que construía a cantina e o alojamento dos operários da Quadra 103 Sul, Capra ergueu a casa de madeira onde sua família iria morar. Disciplinado, sem preguiça para o trabalho, Capra ganharia muito dinheiro ao vencer o desafio proposto por sua empresa de ser a primeira construtora a alcançar a cumieira da obra. Ganhou duas vezes, acumulando 200 mil cruzeiros. Tudo guardado em casa.

Quando a Caixa Econômica Federal abriu sua primeira agência em Brasília, uma Kombi parou em frente à casa de Capra para fazer o depósito da fortuna. “Era muito dinheiro. Havia notas no colchão das camas, em latas, por tudo. Mas não tinha perigo. Naquela época não havia ladrão em Brasília”. Bons tempos, recorda Capra.

Capra: Empresário da noite



Com dinheiro no banco e um sócio disposto a buscar novos empreendimentos, Capra comprou de uma alemã a única boate que havia na Cidade Livre. Batizou de Olga’s Bar. Vinte e um dias depois a boate seria consumida por um grande incêndio que acabou com boa parte da Cidade Livre. Foi no governo de Jânio Quadros, época em que as obras em Brasília foram suspensas e muita gente faliu.

O desastre, no entanto, não desanimou Capra. Junto com um amigo, pegou o Sinca Chambord rumo ao Rio de Janeiro. Planejava buscar um trabalho alternativo por lá. Mas o período não era de sorte. O carro capotou em uma curva e foi vendido como ferro velho. Com esse dinheiro, Capra voltou a Brasília e começou uma nova obra. Recebeu uma serralheria como pagamento, era 1962, e assim deu início a um novo empreendimento.

O italiano também trabalhou com Athos Bulcão, fixando os famosos azulejos do artista. E conheceu o arquiteto Oscar Niemeyer, “que era muito exigente”. Capra conta até hoje, com um gostinho especial, o dia em que percebeu um erro no traçado do arquiteto: “era a entrada de uma garagem, estava tão baixa que um carro não poderia passar ali”. O arquiteto Lúcio Costa, lembra Capra, era tranqüilo. Chegava com as plantas e ia falar direto com os engenheiros. Também recorda as conversas informais com o presidente Juscelino Kubitschek. “JK andava pelas ruas e conversava com todo o mundo”. O último trabalho que Capra realizou em Brasília foi como decorador de interiores para dois empresários. Teresio Capra fará 82 anos no dia 17 de maio.

Saiba mais sobre Lúcio Costa