domingo, 27 de dezembro de 2009

O mijo da criança


Entre o Natal e o Ano Novo o  mundo entra em um período de recesso, parece que tudo fica mais lento, até para o blog Cartas de Brasília. Mas, para que nossos leitores não percam o hábito de buscar novos “posts” neste endereço, publicamos mais uma crônica do médico Célio Menicucci, um dos pioneiros da cidade.

Nos idos de 1959, fiz um parto no acampamento do antigo IAPB, que se encontrava em construção, na quadra 109, em Brasília.

Fiz um parto não espelha a verdade, pois quando cheguei, a délivrance já havia se concretizado e eu me limitei a amarrar o cordão umbilical.

Pois bem. Dias depois resolvi voltar à casa da jovem mãe para saber se tudo corria bem. Fui muito bem recebido e, para minha satisfação, mãe e filho estavam ótimos.

Apressado, como sempre vivia, ao me despedir, a minha cliente me disse prazerosamente:

- Doutor, agora o senhor vai tomar o mijo da criança.

Ai meu Deus, tomar mijo nunca foi o meu forte e quanto mais naquelas condições precárias de higiene.

Eu recusei com veemência, alegando ter de atender outros pacientes, não tendo tempo a perder.

Me despedi por acenos e, ao passar pela sala, escutei a voz da progenitora daquele rebento mijão que dizia:

- Maria, dê o mijo da criança aí pro doutor.

Maria, nos seus verdejantes 14 anos, interceptou os meus passos e perguntou:

- Doutor, o que o senhor vai querer: temos Martini, Traçado e Rabo de Galo.

Eu, para me manter na linha hipocrática, respondi;

- Minha filha, já expliquei a sua mãe que estou em serviço e não posso beber.

Dica do blog: a expressão “beber o mijo da criança”, na região Nordeste, significa celebrar o nascimento do bebê. E isso é feito com bebida alcoólica.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Simon Pitel: o belga que participou da construção de Brasília


A história do belga Simon Pitel em Brasília parece filme de ação, tem até ingredientes de espionagem. Segundo o próprio, o pai o mandou para o desterro no Brasil porque ele estava saindo da linha, era o ano de 1958. Aos 21 anos pegava gosto pelo jogo. O irmão mais velho, Benjamin, já estava em terras tropicais, no Rio de Janeiro, trabalhando com um tio. Família judia, um ajudava o outro e todos atuavam no comércio, vendendo roupas.

No primeiro fim-de-semana de folga com o irmão, Simon saiu para beber Cubas Libres. Descobriu que o salário que recebia do tio por um mês de trabalho equivalia ao consumo de 5 Cubas, ou seja: um mil Cruzeiros.

“Eu não atravessei o oceano para receber um salário de 5 Cubas Libres”, disse a Benjamin e imediatamente decidiu que voltaria para a Bélgica, o pai gostando ou não.

Foi aí que conheceu um romeno que falava francês, vendia de tudo um pouco, e o convenceu a ir para Brasília. Uma cidade desconhecida e em construção. Simon veio de avião e com a ajuda de um professor de línguas do Colégio La Salle conseguiu se fazer entender e ficou hospedado no Hotel D. Pedro II, na então Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante.

Em duas semanas vendeu tudo o que trouxe, com a ajuda de mímica e etiquetas com preços. Faturou 25 mil Cruzeiros. Voltou ao Rio para buscar mais mercadorias com o romeno. Em pouco tempo teria uma loja no número 945 da Avenida Central do Núcleo Bandeirante. Depois comprou um armazém, inaugurou a Loja Central e mais tarde o Lido Magazine.

A loja vendia a moda de sucesso da época: blusas femininas de banlon, semelhante hoje ao twin-set, saias plissadas e as indefectíveis camisas volta ao mundo- sintéticas.

Após a inauguração de Brasília, Simon inaugurou outra loja de roupas na quadra 510 da W3 Sul. Época em que casou, tem dois filhos e netos. No entanto, logo após o fim do governo de Juscelino Kubitschek, surgiria um período de trevas.

“Jânio Quadros ameaçava levar a capital de volta para o Rio de Janeiro, não investia em nada, não construía nada e os negócios pararam”.

Em pré-falência, Simon colocou a mercadoria dentro do carro e voltou a trabalhar como mascate, até que ganhou algumas concorrências e a vida aos poucos voltou ao normal.

A história do Restaurante Roma na W3 Sul


Foi nesta época, 1964, que apareceu um outro belga, Marcel Erbout, que  convidou Simon Pitel para comprar o restaurante Roma, inaugurado em 15 de abril de 1960, um ícone de Brasília. Era de um italiano. Compraram, mantiveram o nome e o restaurante funciona até hoje no mesmo local da 511 Sul.

A sociedade com o conterrâneo durou até 1967, quando Simon comprou a parte do sócio. Ele soubera um pouco antes que Marcel era um ex-SS (polícia do exército nazista). A informação fora confirmada na Embaixada da Bélgica no Brasil. Apesar do sócio ter cumprido pena na Europa e não dever mais nada à Justiça, Simon não aceitava mais sua parceria.

“Como poderia ser sócio de um nazista se meu pai era um sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz?” Questiona Simon Pitel.

O restaurante foi um sucesso retumbante. Fila na porta, senha para buscar pizzas. Eram cerca de 200 pizzas por dia na década de 60. Teve uma vez, na época da ditadura militar, que o restaurante serviu sete ministros de Estado em uma única noite. “Foi uma surpresa. Na calçada ficaram vários seguranças”.

Entre os frequentadores famosos: Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor, Jarbas Passarinho, Tônia Carrero, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Moacyr Franco, Jorge Bem Jor e Waldick Soriano.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Dr. Célio Meneccuci: o cronista de Brasília


Antes mesmo do advento da Internet, o médico Célio Menucucci já praticava proezas virtuais: ele foi o primeiro pioneiro de Brasília a casar por procuração em 1959, estava em Londres fazendo um curso de especialização e a noiva o esperava no Planalto Central. Dr. Célio veio da mineira Lavras em setembro de 1958 já comprometido, quando viajou para o exterior a solução encontrada pelos apaixonados foi recorrer a uma carta registrada dos Correios para oficializar o casamento com uma procuração. Casamento desfeito 11 anos depois mas que deixou três filhos e seis netos e uma sólida amizade.

Aos 78 anos o médico reumatologista , fundador do hospital Santa Lúcia, ainda atende de segunda à quinta-feira em seu consultório na Asa Sul. Foi lá que nos recebeu para uma agradável e nostálgica conversa. Dr. Célio conta que chegou em Brasília já contratado para trabalhar no Hospital do IAPI, depois foi para o Hospital Distrital, hoje chamado de Base, onde ficou até 1979, quando foi transferido para o serviço de Biometria da Secretaria de Saúde do GDF, em 1966 também começou a atender no STF e ainda chefiou o Serviço Médico da SEPLAN. Na foto acima, o médico Édson Porto, de jaleco, colega de Célio, e a primeira ambulância do IAPI.

A escolha por Brasília foi uma influência paterna. O pai de Célio era vendedor e viajava muito pela região Centro-Oeste. Como viajante soube da epopéia da construção de Brasília e contava maravilhas para a família sobre o projeto do presidente Juscelino Kubitschek. De médico pioneiro, Célio se transformou em clínico de JK e de toda a sua família.

Da época da construção guarda boas lembranças. “JK era uma pessoa ótima, solidária, a vida naquele tempo era muito boa. Todos eram amigos, do porteiro ao motorista, passando pelos engenheiros, os médicos, os professores...”

Observador atento dos hábitos e costumes daquele tempo, o médico Célio Meneccuci também desenvolveu o talento literário. Escreve crônicas que resgatam a memora da construção de Brasília. Algumas delas vamos publicar aqui no blog.


Crônica do dr. Célio

Véspera de Natal

O SAMDU da Cidade Livre (antigo nome do Núcleo Bandeirante) era estranho. De manhã, de 8 às 11h, ficava apinhado de gente. Realmente, somente uns 20% precisavam e procuravam assistência médica. O resto ia até lá porque era de graça e lá tinha sempre uma comadre para se bater um papo. Às 11h, como por encanto, sumia todo mundo. Era hora das madames prepararem o almoço, hora do marido chegar.

Num desses momentos de pouco movimento, me aparece um consulente (nome feio, credo):

- O Sr. é o dr. SAMDU?
- Sou sim senhor.
- Eu vim me consultar.
- Qual o seu nome?
- João Véspa.
- João Vêspa? Porque não é João Lambreta? Que idéia essa...
- Não é Vêspa não dr, é Véspa.
- Véspa? Piorou...
- É porque nasci na véspa do Natal.

sábado, 28 de novembro de 2009

Irene Carvalho teve a visão de Brasília 40 anos antes da fundação


Irene Martins de Souza Carvalho, a D. Irene da Comunhão Espírita, recebe cartas até hoje. São pequenos bilhetes de gente aflita por notícias de parentes e amigos que a procuram na Comunhão, que ajudou a fundar na L2 Sul. Há 45 anos, surpreendendo os parentes evangélicos, ela decidiu abraçar a causa espírita que a impressionava desde menina.

Irene chegou em Brasília em 1960. O marido, Mário Carvalho, veio antes com um irmão, em 1958, para definir onde seria a filial da goiana Casa do Barata. O endereço escolhido foi na 506 Sul. A famosa loja de ferragens funcionou até 1995, quando fechou suas portas. A força de seu nome, no entanto, assim como o símbolo da loja, um serrote luminoso, é lembrado por muita gente até hoje.

O ano de 1959 foi dedicado à edificação do prédio de quatro andares: subsolo, térreo e dois andares para a residência da família. Foram inúmeras as idas e vindas até Goiânia- por uma estrada de terra em quase toda a sua extensão, para visitar a família.

Aos poucos, recorda Irene, a cidade ia ganhando forma. Havia inaugurações frequentes de lojas, bancos, bares, sorveterias, casas de doces. Tudo com muitos fogos de artifícios e coquetéis para todos. Era um clima de festa permanente a fazer contra-ponto a poeira- quando o clima era seco, e a lama- quando a chuva era intensa. Muita gente ficava desiludida ao chegar, diz Irene, imaginando que a cidade estava pronta, e encontravam um canteiro de obras.

A visão

Irene conta que viu Brasília 40 anos antes da cidade ser inaugurada. “Eu devia ter uns 13 anos, acordei de madrugada e tive a visão de uma cidade diferente, futurista, e uma voz me disse ‘esta é a cidade um novo tempo, e você vai morar lá’. Quando cheguei em Brasília, em 1960, tive certeza de que era a cidade da minha visão”.

Junto com o marido, Irene fundou o Nosso Lar, no Núcleo Bandeirante, que abriga crianças em situação de risco. São 90, de várias idades. Ela também é autora de teatro, com 36 peças encenadas, todas com a temática espírita como pano de fundo, e também escreve livros. Na visita que fizemos ao seu apartamento para esta entrevista, ela nos presenteou com o livro de sua autoria “Amanhã será outro dia” – pelo espírito Franco Leal.

sábado, 21 de novembro de 2009

O dedo verde de Ney Ururahy




Ele mora em outro bioma. Quando cruzamos o portão da chácara no Lago Sul deixamos a vegetação típica do Cerrado para entrar na Mata Atlântica, vestígios de transição para a Floresta Amazônica e traços de vegetação ciliar, mas há também sinais de Cerrado de Campo Limpo. A impressão é de um jardim botânico. É assim o ambiente de trabalho e residência do paisagista Ney Ururahy, 88 anos, um pioneiro em Brasília.

Ele esteve aqui em 1956 e desembarcou em definitivo com a família em 28 de setembro de 1958. Foi morar em uma das casas do lote de 15 que ficaram prontas no Lago Sul: QL 1, conjunto 16, casa 18. Ney foi o primeiro morador do Lago Sul. Ele não hesitou em mudar para Brasília ao receber o convite de Israel Pinheiro, primeiro presidente da Novacap e prefeito de Brasília, para chefiar seu gabinete.

“Eu achava bonito ver o Lago Paranoá nascendo. Via da minha janela o nível da água subindo a cada dia. Era uma época fantástica, todos eram solidários e havia talentos raros reunidos em um único espaço”, define o paisagista referindo-se a Oscar Nyemeryer, Burle Max, Israel Pinheiro, Athos Bulcão, Juscelino Kubitschek e muitos outros gênios das décadas de 50 e 60.

Ney se define como um “jardineiro chic”. Modéstia, é agrônomo e fez vários cursos de botânica. É um mago da vegetação, tem “dedo verde” e o talento no DNA. O pai, Abelardo da Veiga Ururahy, trabalhou na Divisão de Terras e Colonização, o INCRA da época, e viajava muito pelo País. As histórias das viagens influenciaram o menino Ney, que tinha vontade de conhecer o Cerrado e as Matas de São Patrício, no município goiano de Jaraguá.

O paisagismo do antigo aeroporto de Brasília é obra sua, assim como os jardins da UnB, do Itamaraty, do anexo da Câmara Federal, da SQS 114, da SQS 308 e das embaixadas da Inglaterra e da Itália. Há muito mais, mas a discrição impede que nomeie todas. Cartas? Não lemos nenhuma, mas a filha de Ney, Cristine, prometeu encontrá-las. Em breve voltaremos no bioma que Ney habita para buscar essas relíquias caligrafadas.

sábado, 14 de novembro de 2009

A pioneira Maria de Lourdes Abadia: do barraco para o palácio


A filha de Eduardo Borges de Oliveira, jardineiro, gramador oficial do Palácio da Alvorada, inaugurado no dia 30 de junho de 1958, é Maria de Lourdes Abadia, ex-deputada federal constituinte, ex-deputada distrital, ex-secretária de Turismo, ex-vice-governadora e ex-governadora do Distrito Federal.

Com tantos cargos importantes, pouca gente sabe que Abadia também é candanga e que morou em um barraco perto do Beco do Cacete, no Núcleo Bandeirante, e em outro em Taguatinga. Nessa época, ela dava aulas em uma escola da Praça do Bicalho, trabalhava e cursava Serviço Social na UnB. Não tinha tempo para nada, nem para almoçar. Durante três anos sua refeição ao meio dia se resumiu a dois ovos cozidos preparados pela servente da escola.

Ela também trabalhou como alfabetizadora de adultos do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) e utilizava o método do educador Paulo Freyre, considerado “subversivo” nos tempos da ditadura. “Nós usávamos um projetor de slides para mostrar as letras e como se formavam as palavras. A polícia política achava que o projetor era uma máquina comunista e pediu que os alfabetizadores a entregassem”. Ela não entregou e mostra para os leitores do blog o projetor de slides russo (foto de Paula Sholl).

Abadia guarda objetos em lojas


Maria de Lourdes Abadia fala do pai com orgulho. Foi ideia dele deixar Bela Vista (GO), em 1957, para participar da construção da nova capital. Abadia exibe a carta do presidente Juscelino Kubitschek endereçada ao seu pai cumprimentando pelo trabalho feito nos jardins do Palácio da Alvorada e a medalha que recebeu. Nesse tempo, ela e os irmãos ficaram em Goiás com a mãe, Geni Bonifácio Borges, viriam um pouco depois.

Como estudante da UnB, Abadia participou do grupo de pesquisadoras que cadastrava as famílias que seriam removidas de áreas invadidas para Ceilândia. E foi assim que acabou assumindo o Centro de Desenvolvimento Social e, mais tarde, seria a primeira mulher a assumir a administração da regional.

Cartas não faltam na vida de Abadia, mostra várias e promete mais. Tem duas lojas alugadas na W3 Sul com objetos de toda ordem que guardou ao longo da vida e que pretende selecionar, catalogar e expor. São planos para o futuro.

Entre os guardados, uma antiga boneca de pano que recebeu da então primeira dama Maria Tereza Goulart, esposa do presidente da República João Goulart, o Jango, às vésperas do Natal. “Eu já era uma moça, mas não resisti e peguei o brinquedo”, recorda Abadia com a boneca no colo (foto de Paula Sholl ).

sábado, 7 de novembro de 2009

Na carta, o pedido de casamento feito por Laudelino





Ele datilografava 330 toques por minuto, sem erros. O Banco do Brasil, naqueles idos dos anos 60, exigia para contratar um funcionário a performance de 180 toques. Se o Livro de Recordes já existisse, com certeza o contabilista da Novacap  Laudelino José Ferreira estaria lá. O desempenho impressionou a auxiliar administrativa Jurêdes Figueira.

Foi com muito orgulho que Laudelino, 72 anos, recordou esta fase de sua vida em Brasília numa tarde chuvosa de sábado, em casa, no Park Way, ao lado da esposa Jurêdes, que também foi funcionária da Novacap. Ele chegou em Brasília em março de 1958, com um tio, vindo de Uberaba (MG). Ela um pouco depois, em 59, com a família, vinha do Rio de Janeiro. No dia oito de abril de 1961 estariam casados. A cerimônia religiosa foi realizada na Igrejinha da 108 Sul.

Quando decidiam casar, o pai de Jurêdes estava no Rio. Laudelino não teve dúvida, enviou um carta ao futuro sogro, João Figueira Neto, pedindo a mão de sua filha em casamento. Em pouco tempo chegava a carta com a resposta do sogro: sim, ele abençoava a união.

Laudelino e Jurêdes tiveram quatro filhas: Maria Cristina, Ana Lúcia, Miriam Noêmia e Rosa Maria. O casal morava com as quatro meninas em um apartamento de um quarto na 408 Sul, depois a família mudou para a 312 Norte, 711 Norte e, por fim, para o Park Way.

Numa agradável conversa na varanda, Laudelino recorda dos tempos em que colhia cajuzinho do cerrado nos campos do final da Asa Sul, mas tem também uma lembrança amarga, a malária que contraiu logo que chegou em Brasília. “Provavelmente peguei malária em uma fazenda, onde fiquei uns dias antes de seguir para Brasília”. Os médicos não souberam diagnosticar a origem do febrão e ele foi para Uberaba, lá teve o diagnóstico.

A oposição ao governo do presidente Juscelino Kubistchek logo transformou a malária de Laudelino em propaganda negativa para a nova capital. “A UDN fez tanto barulho que o presidente JK mandou um avião, com médicos, me buscar em Uberaba, mas não precisou, eu voltei depois, totalmente recuperado”.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Notícias pelas ondas do rádio-amador de dona Lourdes




Rádio-amadora casada com o dentista Alcides Aquino Leite, Maria de Lourdes Tostes Aquino Leite deixou a pequena Caratinga (MG) porque “não gostava de cidade do interior”, queria viver em um grande centro. Nada melhor do que participar da construção da capital da República. E foi assim que o casal viajou para Brasília, em 1958, com mais quatro filhos e a japonesinha Yoka, com cinco anos, que era órfã.

Foram morar na Cidade Livre, que se transformou no Núcleo Bandeirante. A família vivia em uma casa de madeira da Segunda Avenida, 1.085, vizinha da casa da enfermeira Cacilda, madrinha do filho mais novo de Lourdes, Eduardo, nascido em 1965.

“Meu marido construiu nossa casa com a ajuda do padre Roque. O padre ia muito lá me casa, ele gostava de comer uma linguicinha frita na cachaça”, recorda Lourdes.

Dona Maria de Lourdes aprendeu os segredos do rádio-amador e pegou gosto graças aos ensinamentos de seu Luiz, pai de Mariza, esposa do vice-presidente da República José de Alencar. “Ele me ensinou tudo que sei”. Hoje, aos 86 anos, ela faz esculturas em madeira e estuda informática.

Na falta de uma agência dos Correios, o rádio-amador de Lourdes levava e trazia notícias de parentes e amigos. “Muita gente ia na minha casa mandar recados e buscar notícias dos parentes”. O esqueleto do rádio está em um canto do apartamento do casal na 307 Sul.

Alcides, 87,  tinha consultório e casa de artigos odontológicos e foi o fundador da Associação Brasiliense de Odontologia (ABO), em 1959. Entre seus pacientes ilustres está Oscar Niemeyer, que foi atendido de emergência no Núcleo Bandeirante graças a um canal inflamado. “Quando cheguei em 58 já havia uns 20 dentistas aqui”, informa Alcides. A filha mais nova de seu Waldyr (o "cara" da draga), Flávia Maria, cursou odontologia por influência de Alcides. “Ela ia no consultório e achava tudo lindo, principalmente os vidrinhos”, lembra o dentista.

Carta para a amiga Cacilda


Lourdes tem uma carta que ainda não foi entregue e que revela o afeto de uma amizade de mais de 50 anos. É um depoimento para a enfermeira Cacilda e que deve constar do livro que Horácio, filho de Cacilda, prepara sobre a vida de sua mãe. Não vamos estragar a surpresa, mas segue um trecho da cartinha:

“Conheci Cacilda em 1958...Fui morar no Núcleo Bandeirante. A poeira era tanta que os pés atolavam, tudo ficava pintado de vermelho...No meio de tudo um oásis: a casa de Cacilda, com horta e jardim...Guerreira Cacilda, enfermeira...Era solícita a qualquer hora do dia ou da noite, acompanhando o desconhecido lá ia Cacilda com seu avental branco e sua maletinha...Sempre invejei a fé de Cacilda...”

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Zenaide chega de Jeep na nova casa




Ela era auxiliar de enfermagem do Serviço Especial de Saúde Pública em Parintins (AM) quando conheceu o futuro marido, o engenheiro sanitarista Cornélio Pimenta Rocha. Nessa época Zenaide estava com 23 anos. Natural de Santarém (PA), a jovem enfermeira casou e foi morar em Belo Horizonte (MG), de onde saiu para seguir o marido na epopéia da construção de Brasília. Era o ano de 1957 e ela já estava com cinco filhos. O marido foi buscá-la no aeroporto em um Jeep Willys, único veículo que resistia aos obstáculos da nova capital.

No dia em que chegou, sua casa na Vila Metropolitana ainda estava em obras. Faltava o piso e os móveis estavam sendo colocados. A casa era de madeira. O terceiro filho, Marcos, na época com quatro anos, foi logo dizendo: “eu não quero morar nessa casa de pau”. Não teve opção, morou, mas foi por pouco tempo. Logo a família mudou para uma casa no Plano Piloto, na 706 Sul, onde vive até hoje. A casa não lembra a original, já passou por três reformas.

A família foi vizinha do arquiteto Oscar Niemeyer, que morava na quadra 707 Sul, bloco M, casa 15. “Meus filhos brincavam com os netos dele”, recorda Zenaide.

Ela também lembra do dia do sepultamento do presidente Juscelino Kubitschek no Cemitério Campo da Esperança, em 1976. “Fui com meu marido e a Cacilda (enfermeira, madrinha de Moema, filha mais nova de Zenaide), era um mar de gente, todo mundo com um ramo de flores nas mãos”. Ela lembra ainda das serenatas feitas pelos engenheiros e as esposas, em noite de lua cheia, para JK, no Catetinho. “Ele aparecia na janela, as vezes de pijama, e depois descia para conversar”.

Solidariedade ao sanitarista Cornélio Pimenta Rocha

O engenheiro Cornélio, falecido em 1991, foi o protagonista de um movimento de solidariedade popular. Em uma palestra ele falou sobre a falta de saneamento básico na Asa Norte, ainda em construção, e dos riscos para a saúde da população. Ele era diretor do Departamento de Água e Esgoto. Insatisfeito com a declaração do sanitarista, o então prefeito de Brasília, Ivo Magalhães, o demitiu.

Colegas e amigos protestaram e paralisaram o serviço público exigindo sua recondução ao cargo. O jornal Correio Braziliense, em várias edições do mês de junho de 1963, relata o fato em reportagens. A crise só foi encerrada quando o presidente João Goulart, que estava na China, exigiu que Cornélio voltasse ao cargo.

domingo, 25 de outubro de 2009

Seu Waldyr é o “cara da draga”

O contador Waldyr Barreto, 86 anos, é conhecido entre os pioneiros como “o homem da draga”. Nascido em São José do Barreira (SP) e criado em Juiz de Fora (MG), ele chegou na futura capital do Brasil em 1957. Estava casado com Paulina, a Paula, e tinha dois filhos: Carlos Alberto (casado com Glicínia, genro de D. Celita) e Maria Lúcia, depois vieram Maria Thereza, Maria Beatriz e Flávia Maria.

Maria Thereza nasceu no mesmo dia em que a família recebeu a notícia da morte de seu Waldyr. Era um engano, é claro. Ele escapou de um acidente com o Jeep Willys em que viajava com um colega. O utilitário bateu em um caminhão- que não parou para ajudar, e eles foram jogados para fora da estrada. O colega morreu. “Eu pedi a Deus e sobrevivi”, recorda Waldyr, que esperou por socorro por mais de 10 horas.

A draga puxava areia do leito do rio Corumbá, no caminho que vai para Unaí (MG). “Me disseram que o melhor negócio do mundo era vender areia para a construção de Brasília, então eu instalei a draga”, conta Waldyr, que não ficou rico com o negócio. Aposentado como autônomo, mora com duas filhas em uma casa da 709 Sul desde 1974.

Naquele tempo, o trajeto do rio Corumbá até a proximidade do Catetinho, onde o motorista do caminhão recebia instrução de onde deveria descarregar a areia, levava cinco horas. “Toda a barragem do Paranoá foi feito com areia, cascalho do campo e cascalho rolado que eu trouxe do rio Corumbá”, avisa o pioneiro.

Recordações da filha Maria Lúcia



Metodista tal como a enfermeira Cacilda e a alfabetizadora Celita, Waldyr ajudou a construir a igreja da 406 Norte. Cacilda e Paulina- falecida em 1997, eram muito amigas. Maria Lúcia mostra uma xícara de cafezinho do enxoval de sua mãe, Paulina, guardada na cristaleira, com uma pequena observação colada no fundo: “Para minha amiga Cacilda como recordação, 1980”. Com a morte da amiga, Cacilda devolveu a xícara e explicou: “quando eu morrer os meus filhos não vão entender o valor desse presente, prefiro que volte para a família”.

Dona Paulina escreveu um caderno de recordação para cada um dos filhos. Maria Lúcia mostra o seu. Toda a rotina do bebê foi anotada, o dia em que falou pela primeira vez, as primeiras papinhas, os presentes recebidos de aniversário, o nome das amiguinhas, fotos, bilhetes, desenhos escolares. Tudo registrado com o carinho de mãe dedicada.

Maria Lúcia exibe também a cartinha enviada de Minas pela madrinha Naná, que começa com uma citação do Cenáculo: “Hoje, eu colocarei as minhas mãos nas mãos de Deus a fim de que eu não caia”.

sábado, 24 de outubro de 2009

Brasília em construção



Obra provocou grande desmatamento

Participe do 3º Dia de Ação Global da campanha TicTacTicTac!

O blog participa desta ação. Dia 24 de outubro é o Dia Nacional de Adesão ao abaixo assinado para um clima saudável e seguro! Escolha eventos artísticos, esportivos, religiosos e culturais que ocorrerão hoje. Aproveite o espaço e o público para passar a mensagem da TicTacTicTac. O mundo precisa de soluções climáticas e o tempo está passando.

Em 15 de outubro o Cartas de Brasília também participou do dia internacional do Blog Action Day,  uma mobilização social que, sempre no dia 15 de outubro, propõe um tema para ser debatido na blogosfera. Pautado por um assunto de importância global, a iniciativa possui vários atributos positivos, entre eles conseguir atingir milhões de pessoas por intermédio de blogs e sites, ampliando a rede de relacionamentos sociais e despertando interesses. Começou em 2007, quando a ação teve “Meio Ambiente” como foco. Em 2008, se falou sobre “Pobreza”, este ano o assunto é “Mudanças Climáticas”.

Confira aqui como era o clima no Planalto Central no século 19 e perceba como as alterações climáticas mudaram o cenário de Brasília.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Dr. Nardelli contabiliza 17 mil partos realizados

“Até hoje eu sonho com partos complicados”, revela o ginecologista e obstetra Ítalo Nardelli, 92 anos completados no dia 15 de outubro. Pioneiro em Brasília, Nardelli chegou na nova capital em 1960 para trabalhar no Hospital Distrital, hoje Hospital de Base de Brasília. Formado em Medicina em 1942, contabiliza 17 mil partos realizados. Em Brasília, foi colega das pioneiras Cacilda Rosa Bertoni, enfermeira, e de Versoni- a Soni Gonçalves Homar, médica. Entre os famosos que trouxe ao mundo consta a atriz Irene Ravache.

Dr. Nardelli estava com 42 anos, tinha seis filhos e morava no Rio de Janeiro, quando disse para a esposa Elza que desejava trabalhar em Brasília. “Ela não queria de jeito nenhum, mas eu insisti e viemos”. A família foi morar no apartamento de uma das irmãs de Nardelli, casada com o deputado federal por Minas Gerais Abel Rafael, na 107 Sul. A irmã tinha 13 filhos, com os seis do médico havia 19 crianças no apartamento. O filho caçula, Ítalo, nasceu em Brasília e recebeu o apelido de Dango, derivado de “candango”.

Quando se aposentou, Nardelli trabalhou como voluntário na Igreja São Geraldo, na Vila Paranoá. “Eu atendia as gestantes num consultório improvisado na sombra de uma mangueira, ao ar livre, depois consegui um espaço na sacristia”, recorda o médico. Sua esposa Elza é voluntária na igreja até hoje. Organiza festas e bazares para conseguir recursos para a comunidade da vila. Também é do movimento das Bandeirantes do Brasil.

Em várias caixas estão guardadas recordações de toda uma vida. Elza mostra telegramas de congratulações pela formatura do marido em 1942, telegramas desejando felicidades pelo casamento do casal em 1945 e cartas dos filhos em férias no Rio de Janeiro, endereçadas ao pai, ao longo da década de 1960. Em uma delas, o filho Eduardo conta que se considera “uma gaivota procurando peixe”. Em outra cartinha a filha Beth pergunta se a empregada “está preparando ovos nevados e banana frita”, e em outra comemora que tirou primeiro lugar em um concurso de leitura.

Dr. Nardelli recebeu várias homenagens por sua dedicação à Medicina, entre elas comendas do Governo do Distrito Federal, do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal e do Congresso Brasileiro de Cirurgiões do Rio de Janeiro.

Nardelli recorda os anos de chumbo: da embaixada para os Titãs

O ginecologista e obstetra Ítalo Nardelli realizou o parto do filho caçula de Lígia de Britto Álvares Afonso, esposa do deputado federal Almino Afonso (AM), ex-ministro do Trabalho e Previdência Social do governo de João Goulart. Quando Fábio nasceu o deputado estava asilado na Embaixada da Iugoslávia, em Brasília, cassado em abril de 1964 pelo Ato Institucional Número 1, junto com ele o deputado Rubens Paiva.

Nardelli não teve dúvidas nem receio, pegou o bebê de dois dias no colo e o levou na embaixada para o pai conhecer. “Falei com os guardas que cercavam a embaixada, quase todos me conheciam, expliquei a situação, disse que ficaria só cinco minutos, e eles me deixaram entrar. O deputado ficou muito emocionado quando viu o menino”, recorda o médico.

Lígia e Almino tiveram quatro filhos, um deles, que assina Sérgio Brito, toca na banda Titãs. Da embaixada, a família seguiu para Áustria e depois Chile. As crianças foram alfabetizadas em espanhol. Somente em 1976 o deputado retornou ao Brasil com a família.

A esposa de Nardelli, Elza, lembra da correria estudantil pelas ruas de Brasília durante os anos de chumbo. “Era um horror, todo o dia alguém ia preso, a UnB vivia cercada”.  O filho caçula, Ítalo- o Dango, nascido em Brasília em 62, tinha muito medo da polícia. Um dia, abrigado na Igreja Santo Antônio com a mãe, enquanto ocorria uma manifestação estudantil na área externa e a polícia fazia o cerco, o menino declarou: “quando eu crescer não quero ser estudante”.

Porque Eu Sei Que É Amor

Composição de Sérgio Britto e Paulo Miklos (Titãs)

Eu não peço nada em troca
Porque eu sei que é amor
Eu não peço nenhuma prova

Mesmo que você não esteja aqui
O amor está aqui
Agora
Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir
Embora

Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
E eu peço somente
O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor
Sei que cada palavra importa
Porque eu sei que é amor
Sei que só há uma resposta

Mesmo sem porquê eu te trago aqui
O amor está aqui
Comigo
Mesmo sem porquê eu te levo assim
O amor está em mim
Mais vivo

Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
E eu peço somente
O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor
Porque eu sei é amor

sábado, 17 de outubro de 2009

A professora de alfabetização Celita

Celita empresta seu nome para um restaurante na turística cidade de Pirenópolis (GO), além de sua imagem. Na parede do estabelecimento está o seu retrato: jovem morena de paletó, linda e com um sorriso de Monalisa. A dona do nome que batiza o restaurante é a professora de alfabetização Celita de Souza Lôbo Mendes, 77 anos, que chegou em Brasília em 1958, junto com o marido, pastor da Igreja Metodista, Antônio Margarido Mendes.

Instalaram-se na Terceira Avenida do Núcleo Bandeirante com os filhos Humberto, com pouco mais de dois anos, e Glicínia, com um aninho. A casa era de madeira pintada de verde e com as janelas brancas. Depois nasceram Heverton- sócio do restaurante em Pirenópolis, Gláucia, Gilka, Holney e Gislene.

A enfermeira Cacilda Rosa Bertoni, também metodista, ficou alguns meses na casa de Celita até construir a sua, na Segunda Avenida, 1.105, também no Núcleo. Foi ela quem socorreu Humberto quando ele caiu em um poço e levou mais de 20 pontos na cabeça. O menino foi atendido no Hospital de Base de Brasília, que ainda não havia sido inaugurado.

Celita lembra dos primeiros dias no Núcleo: “ não tinha água encanada nem luz elétrica. Buscávamos a água em latas, num córrego”. Logo o marido mandaria furar um poço. A água veio em abundância e pode abastecer, além da casa da família, a dos vizinhos.

“Ele deu sete passos e disse: pude furar aqui. E a água jorrou”. Recorda Celita e explica que o número sete é bíblico, por isto os sete passos do pastor. E acrescenta: “Eu acompanhava o meu esposo para onde ele fosse, foi assim que aprendi a gostar de futebol”.

Viúva e vítima de um AVC, hoje Celita mora com a filha Glicínia, maestrina, em uma casa à beira do Lago Paranoá.  E é ela quem lembra: “o Natal de 2001 eu e meu esposo viemos de Goiânia para passar com a Glicínia, e ele disse- ‘meu bem, o dia em que eu faltar, quero que você more com a Glicínia”. Logo depois o pastor faleceu e Celita cumpriu com a sua vontade.

Alcina Lôbo escreve para a filha Celita



Dona Alcina Lôbo, mãe de Celita, morava na Fazenda Cibele, além de Luziânia (GO), e enviava cartinhas para a filha indagando sobre a vida da família em Brasília. Algumas cartas foram guardadas, outras perdidas. Uma delas, sem data, transcrevemos para os leitores do blog:

Prezada filha Celita Mendes e netos,

Como vão vocês? Bem, não é.
Celita, desde que fui daqui não recebo carta sua, já estava preocupada com vocês, mas a Elis me escreveu dando notícias suas, disse que vocês estão bem de saúde, graças a Deus.

Rogo a Deus para que ele a abençoe muito, dando saúde e felicidades, bem com aquela confiança inabalável em Jesus.

Celita, se Deus quiser vou logo em sua casa, mas estou constantemente com vocês nas minhas orações, pedindo a Deus que dê saúde e vida para todos vocês.

Diga para Humberto que não escrevi para ele no seu aniversário, mas pedi muito a Deus para que faça dele um bom moço cristão.

Vou terminar com um abraço para cada um dos meus netinhos, para você e Mendes.

Recomendações para todos

De sua mãe que a ama muito

Alcina Lobo

Pede para a Divina juntar uns retalhos para mim. Abraços para ela.  Como não tenho nada para mandar, vão uns doces.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blog Action Day: o clima no DF há 50 anos

Hoje é o dia internacional do Blog Action Day. Trata-se de uma mobilização social que, sempre no dia 15 de outubro, propõe um tema para ser debatido na blogosfera. Pautado por um assunto de importância global, a iniciativa possui vários atributos positivos, entre eles conseguir atingir milhões de pessoas por intermédio de blogs e sites, ampliando a rede de relacionamentos sociais e despertando interesses . Começou em 2007, quando a ação teve “Meio Ambiente” como foco. Em 2008, se falou sobre “Pobreza”, este ano o assunto é “Mudanças Climáticas”.

Saiba como era o clima no Planalto Central no século 20 e perceba como as alterações climáticas mudaram o atual cenário de Brasília.

Relatório Belcher registra o clima no futuro DF

O Relatório Técnico sobre a Nova Capital da República, conhecido como Relatório Belcher, começou a ser preparado em 1954, quando foi contratada a empresa norte-americana Donald J. Belcher Associates, que ficou encarregada dos serviços de engenharia necessários à definição precisa do sítio do Distrito Federal.

Na página 165 do Relatório, o item “Clima”, reporta a seguinte observação:

“O clima afeta os solos de várias maneiras, em geral, como atenuando as influências da rocha matriz e do relevo, mas algumas vezes sendo definitivamente subjugado por esses muitos fatores locais. Climas mornos e úmidos tendem, em geral, a produzir solos de cor avermelhada provenientes de muitas espécies de rochas. Entretanto, devido às influências de outros fatores, em particular associação com o clima produzem-se, muitas vezes, solos castanhos, amarelos ou pretos, às vezes com características diferentes. Uma alta precipitação favorece o desenvolvimento de solos ácidos lixiviados. O clima afeta muito diretamente a espécie de vegetação embora aqui, novamente, se um ou mais dos outros fatores exercerem influência muito forte, a vegetação local refletirá esta influência em detalhe”.

Naquela época, para a região de Formosa, a mais próxima do DF, o Relatório registrou uma precipitação pluviométrica média anual de 192.2 mm. Choveu em todos os meses do ano. Inclusive nos que são considerados atualmente como “secos”: em maio a precipitação foi de 207.5 mm, em junho de 82.5 mm, em julho de 5.0 mm e em agosto de 22.5.

Com a mudança climática, que provoca aumento de temperatura e escassez de chuvas, Brasília passou a ter meses totalmente secos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Soni: a atriz vira médica cardiologista

Aversoni Gonçalves Homar, a Soni, e João Alcides Homar haviam encerrado os estudos em Goiânia sem concluir o Segundo Grau. Entusiasmados com as novas possibilidades oferecidas na capital, os dois foram estudar no Elefante Branco e logo fizeram vestibular. Soni para Medicina e João para Arquitetura, na UnB, inaugurada no dia 21 de abril de 1962.

Ela tinha experiência como atriz nos palcos de Goiânia e também nos microfones do rádio-teatro da Rádio Clube. Ele era desenhista. Ambos militavam na Ala Moça do PSD.

Nessa época Soni trabalhava como escriturária do Hospital de Base de Brasília. E foi nessa condição que concluiu Medicina e teve mais dois filhos durante a faculdade. “Eu ia cedo para o hospital, de lá pegava um ônibus para a faculdade e, mais tarde, voltava ao hospital”, recorda a médica. Nesse tempo, Soni foi colega da enfermeira Cacilda Rosa Bertoni.

No época de estudante, o casal morava na W3 Sul, quadra 713, onde ficou até 1978, quando mudou para uma ampla casa na Vila Planalto. O primeiro telefone que tiveram era número 234, via telefonista.

Ney Matogrosso e o falso médico

Dos tempos do hospital, Soni lembra muito bem de Ney Matogrosso, que no final dos anos 60 era escriturário como ela. Na sala de sua casa há um desenho azul feito pelo cantor. Recorda também de um dos clínicos do hospital, Alfredo Ribeiro. Muitos anos depois, se descobriu que ele não era médico, era representante de laboratório farmacêutico. “Fazia diagnósticos ótimos”, lembra Soni, “ficamos surpresos com a revelação” e acrescenta: “com ele aprendi a dar o dinheiro da passagem de ônibus para o paciente retornar ao consultório”.

Da época do rádio-teatro em Goiânia, guarda a cartinha enviada pela emissora:

A direção artística da Rádio Clube de Goiânia vem convidar a V. S. a comparecer aos stúdios da referida Emissora, dia 04-09-1952, afim de submeter-se a um test para teatro.

De escriturária, Soni passou a Diretora Técnica do Hospital de Base, chefe de Medicina Interna, chefe do Ambulatório e chefe da Cardiologia. Trabalhou 37 anos no hospital, onde se aposentou. Hoje é uma das sócias do Instituto de Doenças Cardiovasculares, na Asa Sul, onde atende todos os dias.

A carta de Soni a JK e o telegrama do Presidente


Aversoni Gonçalves Homar, conhecida como Doutora Soni, chegou no que viria a ser Brasília no dia 15 de março de 1958, com quatro filhos. O marido, João Alcides Homar, arquiteto, veio um pouco antes, em dezembro de 1957, ficou hospedado no Hotel Souza, no Núcleo Bandeirante. Tinha um bilhete do governador de Goiás, Juca Ludovico que o recomendava a Bernardo Sayão.

Naquele tempo, João era desenhista. Soni era atriz de palcos e de rádio-teatro, além de diretora da Ala Moça do PSD, em Goiânia (GO), onde moravam na rua Jaraguá, 656, bairro Campinas, depois deixarem Minas Gerais. Ambos tinham pouco mais de 20 anos. Hoje ela está com 75 e ele 76.

Um pouco antes de João desembarcar no Planalto Central com seu bilhete, Soni escreveu em segredo uma carta para o presidente Juscelino Kubitschek pedindo emprego para o marido nas obras de construção de Brasília. Dentro do envelope colocou uma cartinha do deputado Arlindo Porto, seu padrinho de casamento, para mostrar que era ligada ao PSD e, portanto, gente de confiança. No final da correspondência a JK, Soni pedia a devolução da carta do deputado.

O encontro com Sayão, que o empregou na equipe de Lúcio Costa, sob as ordens do arquiteto Adeildo Viegas de Lima, aconteceu antes da carta de Soni ser lida por JK.

Mas assim que recebeu a correspondência, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, JK mandou que seu sub-chefe da Casa Civil, Célio Tácito, enviasse o seguinte telegrama para Soni:

2150 P XV Rio DF 7444 43 30 17


Aversoni Gonçalves Homar Rua Jaraguá NR 656 Campinas GO


SR. PTE Republica incumbiu me comunicar assunto sua correspondência foi encaminhada CIA Urbanizadora Nova Capital em 29 1 58 a fim de ser devidamente apreciado PT PR 4147/58 SDS Célio Tácito Sub Chefe da PTE Republica.

João conseguiu também esse emprego, mas não assumiu. O outro, com Lúcio Costa, tinha salário melhor.

sábado, 10 de outubro de 2009

Com a enfermeira Cacilda, a história da saúde pública na inauguração de Brasília


Faltando poucos meses para a capital do Brasil completar 50 anos, o blog Cartas de Brasília se antecipa ao aniversário do dia 21 de abril para homenagear os pioneiros ao contar a saga da enfermeira Cacilda Rosa Bertoni. Ela teve atitude para atender a população da cidade que aumentava da noite para o dia e equipar o Hospital Distrital, hoje Hospital de Base, para a inauguração em 1960 (na foto acima, o início de Brasília com a Cidade Livre, Acervo Público do DF).

O repentino urbanismo erguido em pleno Cerrado pelo presidente da República Juscelino Kubitschek, o JK, exigia respostas para todos os setores. E a Saúde era um deles. A data da inauguração de Brasília se aproximava, mas os equipamentos para instalar o Hospital Distrital ainda estavam dentro das caixas, no almoxarifado, em março. Depois de cinco anos de intenso trabalho para construir a nova capital do Brasil, o atendimento à saúde em um hospital moderno e central exigia respostas.

Até então, os pioneiros da nova capital resolviam seu problemas de saúde em hospitais de campanha erguidos nos acampamentos operários ou contavam com a ajuda de parteiras e enfermeiras. Cacilda Rosa Bertoni, enfermeira e administradora hospitalar, hoje com 90 anos, era uma dessas pessoas dispostas a ajudar (ao lado, a primeira ambulância, Acervo Público do DF).

Esforço de guerra

Ela chegou ao Distrito Federal em 1958, durante as obras de construção de Brasília, e foi morar na Cidade Livre, área que abrigava a maior parte dos pioneiros, hoje Núcleo Bandeirante. Cacilda tinha a experiência do “esforço de guerra”, adquirido na década de 1940, e rapidamente organizou uma força tarefa formada por uma costureira e sua filha, pegou uma máquina de costura, comprou peças de algodão, e começou a organizar os instrumentais, que precisam ser cobertos por tecido. Também conseguiu um jovem baianinho para fazer a limpeza. E ainda colocou para trabalhar na organização do hospital o recém chegado doutor Farani (José Farani, já falecido).

“O Farani só queria operar. Ele desejava inaugurar o hospital com uma cirurgia”, recorda Cacilda. Mas o primeiro paciente grave não foi para a cirurgia. Era um rapaz vítima de atropelamento. Teve fratura exposta. Mas o tratamento foi com uma técnica de imobilização e uso de água oxigenada no ferimento para evitar infecção. “Acabamos com a água oxigenada de Brasília e das redondezas”, recorda a enfermeira. A cirurgia, esperada por Farani, demorou um pouco mas acabou acontecendo. Foi um caso de apendicite. Com o ritmo das obras de Brasília cada vez mais rápido para cumprir o prazo previsto para a inauguração, era cada mais frenético o movimento de veículos nas ruas, principalmente de caminhões e jeeps. Os operários, a maioria vinda de cidades do interior, onde quase não havia veículos, eram surpreendidos pela urbanização, que trazia consigo os riscos da modernidade (acima, à direita, a enfermeira Cacilda em foto do Correio Web).

Algodão e linha

O hospital abriu as portas, improvisado, para atender uma população estimada em 15 mil habitantes. Sala cirúrgica, sala para curativos, sala de espera. Não tinha lavanderia, refeitório, quartos etc. As roupas de cama eram levadas até as freiras de Taguatinga, a 30 quilômetros de Brasília, para serem lavadas. “Como faltava muita coisa naquela época, inclusive tecidos, muitos lençóis sumiam para aparecer na casa de ex-pacientes”, recorda a enfermeira. Quando terminava a linha para os pontos nos pacientes do hospital, Cacilda ia nas lojas de armarinho comprar linha de algodão preta número 40.

Outro médico daquele tempo, e que trabalhou com Cacilda, foi o doutor Aloísio Campos da Paz, da Rede Sarah de Hospitais. “Ele fotografava todos os procedimentos, dava muito trabalho, porque tínhamos de entregar a ele o ‘campo – pano esterilizado, e logo ficávamos sem ‘campos’ para os outros procedimentos”, diz a pioneira.

A enfermeira Cacilda foi quem criou a Secção de Enfermagem do Distrito Federal e foi sua primeira presidente. Era o ano de 1962.



A saga de Cacilda

A enfermeira e administradora hospitalar, Cacilda Rosa Bertoni, 90 anos, chegou em Brasília em 1958. Melhor, chegou na Cidade Livre, Brasília não existia, era apenas um canteiro de obras. Morou até 1960 em uma casa de madeira na Segunda Avenida, número 1.105, onde hoje é o Colégio La Salle. Em sua carteira do trabalho, sob o registro número 078, está o seu contrato como funcionária da Fundação Hospitalar do Distrito Federal, assinada em 16 de maio de 1960 (acima, mais um registro da Cidade Livre, foto do Acervo Público do DF).

A história da enfermeira Cacilda é uma saga. Antes de Brasília, ela percorreu a Amazônia. Era a década de 1940. Órfão, o roteiro de Cacilda inicia em Piracicaba e segue para Ribeirão Preto (SP). De lá ela viaja para o Rio de Janeiro com o objetivo de estudar Enfermagem na Escola Ana Nery e ser missionária. Diplomada em 20 de maio de 1946, embarca para Belém (PA) no dia primeiro de junho, para trabalhar no Hospital de Doenças Tropicais Evandro Chagas.  Ficou dois anos e seguiu para Breves, na ilha de Marajó, onde os doentes precisavam muito mais dela dos que os enfermos da capital do estado. Na ilha permaneceu por mais dois anos no combate à malária e outros agravos à saúde.

“Era a época do esforço de guerra”, recorda Cacilda. Os Estados Unidos precisavam de borracha e para ter a matéria-prima os seringueiros necessitavam de atenção à saúde. E lá estava a enfermeira. De Breves, seguiu para Santarém, também no Pará, para organizar um novo hospital. Feito o serviço, aceitou uma bolsa para estudar Administração Hospitalar em Maryland, Baltimore (EUA).

No retorno ao Brasil casou com um representante da indústria farmacêutica, Afonso Bertoni, tiveram três filhos.  Foi do marido a ideia de mudar para Brasília. Ele veio na frente, no final de 1957.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O bilhete do empréstimo

O empresário Ildeu Oliveira, pioneiro em Brasília, foi um dos grandes amigos do presidente Juscelino Kubitschek e também eram primos. Ildeu guarda muitas cartas e lembranças de JK. Até mesmo um bilhetinho, do dia oito de agosto de 1976.

E conta a história do bilhete:

“Fazendinha JK, Luziânia (GO), seis horas da manhã, domingo. Juscelino sai cedo da cama e badala o sino da varanda para acordar os amigos César Prates, Déa e Carlos Murilo –e o próprio Ildeu. Expectativa de um dia feliz, alegre. Mas logo depois chega Neusa, esposa de Ildeu, com a notícia da morte do amigo Geraldo Vasconcelos, deputado federal e presidente do Clube Atlético Mineiro. O presidente fica abalado, chora muito. Avisa que vai ao sepultamento. Sem dinheiro em casa para as despesas com transporte aéreo de emergência, pega emprestado Cr$ 5 mil com Ildeu. Insiste em assinar um vale. Ildeu resiste, não quer o vale. Não adianta. Juscelino escreve num pedaço de papel:

Ildeu me forneceu no dia 08.08.1976, 5.000 (cinco mil cruzeiros). Juscelino Kubitschek.”

sábado, 3 de outubro de 2009

A mulher das cartas

Marlene era funcionária dos Correios

As primeiras cartas chegavam no vôo das cinco horas. Às seis, as cartas já estavam na esteira da Agência Central dos Correios, em Brasília. E lá estava Marlene Maria Santos para acompanhar a primeira triagem da correspondência. Foi na esteira que Marlene identificou a letra do namorado sumido, enviando uma carta de Belo Horizonte (MG) para o primo em Sobradinho.

Separadas pela origem e destino, depois as cartas eram enviadas para as agências dos Correios na quadras residenciais. Material suspeito não seguia em frente. Marlene separava o envelope, ou pacote, e mandava para averiguação, onde o Raio-X se encarregava de descobrir o conteúdo.

Marlene faz lembrar o livro Cartas na Rua, de Charles Bukowski, que trabalhou como funcionário dos Correios dos Estados Unidos por muitos anos, até se transformar em um escritor de sucesso e escrever sobre sua experiência com as cartas em um de seus romances.

Foi por trabalhar durante 26 anos nos Correios que Marlene aposentou. A confirmação do emprego, há quase três décadas, chegou num telegrama. A irmã caçula, em uma família de seis irmãos, Marilda, é aposentada do Ministério da Agricultura. Ambas moram em um apartamento da 409 Sul, quadra destinada a funcionários do Senado, no início de Brasília. O pai delas, Olívio, era do Senado, no Rio de Janeiro, veio transferido em 1959. A mãe, Nair, e os filhos, chegaram no dia 11 de junho de 1960. Os pais eram de Alagoas.

Na opinião de Marlene, “os anos 60 foram bons demais!”.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Juscelino no confessionário e a Copa do Mundo

No dia 28 de junho de 1958, foi realizado o primeiro casamento de Brasília, na Igrejinha, celebrado pelo Cardel Motta. A noiva era uma das filhas do engenheiro Israel Pinheiro. Um pouco antes da cerimônia, o presidente Juscelino pede ao padre Raimundo para ser ouvido em confissão. Em suas anotações o padre faz o seguinte registro sobre esse episódio:

“O Presidente da República me fez sentar em uma cadeira e ali mesmo, de joelhos no chão, fez sua confissão. Disseram então as más línguas, que assim comecei: Quais os pecados que tenho a honra de perdoar de V. Excia? Na ocasião refleti comigo mesmo – Feliz a Nação que vê seu chefe supremo dobrar os joelhos para pedir a Deus perdão.

O padre Raminundo, excelente cronista, também faz o registro da primeira Copa do Mundo de Futebol acompanhada em Brasília. Foi na Suécia, em 1958, e o Brasil sagrou-se campeão pela primeira vez.  O rádio que sintonizou os jogos era de Dom Fernando, que visitava o Colégio Dom Bosco. De acordo com o padre, foi “vibrante a torcida eclesiástica”.

Anotações do padre Raimundo, salesiano


O Colégio Dom Bosco foi a primeira instituição de ensino a se instalar em Brasília. Foi em 1958, no Núcleo Bandeirante. Em 1960, o colégio foi transferido para a área nobre da cidade, a avenida W3 Sul, no Plano Piloto, com inauguração festiva no dia 30 de agosto. O blog fez uma consulta ao Centro Salesiano de Documentação e Pesquisa (CSDP), em Barbacena (MG), sobre a existência de registros sobre os primeiros anos do Colégio Dom Bosco.

Em uma semana recebemos a resposta. Por e-mail chegaram cartas datilografadas, e escaneadas pelo CSDP, com registros feitos pelo padre Raimundo do Nascimento Teixeira, um pioneiro.

Em dezembro de 1957, o padre recebeu a missão de instalar o Colégio Dom Bosco em Brasília, cidade ainda em construção. No dia seis de fevereiro de 1958 ele desembarcou. Chovia muito, como até hoje acontece em todo o mês de fevereiro na capital federal. O colégio era uma pequena sala. Não havia acomodações. O padre dormiu no chão, embrulhado na batina. Suas primeiras compras na nova terra foram uma bicicleta, uma cama e um filtro.

Em março, as aulas iniciaram. A primeira aluna matriculada foi Lucy Natália Kanyó, filha de um engenheiro da construtora Nacional.  Os livros didáticos chegavam pelo Correio, que funcionava no Núcleo Bandeirante. Com a bicicleta, padre Raimundo levava os livros para a escola e também alimentos, cadeiras, mesas...

Cirlene Ramos, a secretária de JK e D. Sarah

“A faxineira foi quem indicou”, revela a diretora do Memorial JK, Cirlene Ramos. Ela era professora de português no Colégio Rivadávia Corrêa, Rio de Janeiro, quando soube pela faxineira da escola, que era irmã da diarista na casa do presidente Juscelino Kubitschek e de dona Sarah, que o casal precisava de uma secretária.

Foi a décima sétima a ser entrevistada. Dora Sarah perguntou como ela soube da vaga. Cirlene respondeu: “pela faxineira”. A segunda pergunta foi de JK, se ela daria conta de atender duas pessoas. Firme respondeu: “Nunca desisti daquilo que não tentei”. Começou no outro dia. Era 1967 e o casal havia voltado do exílio.

Conversamos na quarta-feira com Cirlene, dia 31 de setembro, no Memorial. Marcamos um próximo encontro, quando ela nos repassará cópias de cartas de JK e outras correspondências que guardou por todos esses anos.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Oscar Niemeyer escreve sobre a Praça dos Três Poderes

O arquiteto Oscar Niemeyer segue internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, no Rio. Sábado, 26, ele deixou o CTI e foi levado para uma unidade intermediária.

De acordo com o hospital, o estado de saúde do arquiteto é estável e ele respira sem o auxílio de aparelhos. Niemeyer foi internado na noite de quarta-feira, 23, para realização de exames de rotina e passou por uma cirurgia para retirada de um cálculo diagnosticado nos exames.

Em junho deste ano, ele já havia sido internado para exames depois de sentir dores lombares. Niemeyer completa 102 anos em dezembro e prepara uma edição especial de sua revista, Nosso Caminho, em comemoração aos 50 anos de Brasília, em 2010.

A seguir, leia transcrição de artigo escrito por Niemeyer na década de 80- o manuscrito original não estava datado, onde ele fala sobre o conceito da Praça dos Três Poderes e reclama de seu abandono. Os espaços pontilhados correspondem a rasuras que não conseguimos decifrar.

A Praça dos Três Poderes

Oscar Niemeyer

A praça representa os poderes que comandam a política nacional. No Palácio do Planalto, o Executivo, no Supremo Tribunal Federal, o Judiciário, e no Congresso Nacional, o Legislativo. Deles depende a vida brasileira e as nossas próprias vidas.

Daí sua importância, que sua arquitetura procura concretizar, com os palácios contidos em suas formas regulares, enriquecidos por uma preocupação plástica diferente, mais livre e, sem dúvida, mais brasileira.

Não se trata, é claro, de copiar a arquitetura nacionalista na melancólica interpretação, nem transcrever a velha arquitetura colonial, mas fazê-la com a mesma liberdade plástica, com o mesmo amor pela curva, que esta última nos ensina, e que suas construções barrocas exercem.

E tudo nos explica a praça despida da vegetação que uma praça provinciana exigiria e as esculturas que também a completam. Esculturas que, de certo modo, contrastam, uma lacuna que cabe reparar ou, pelo menos, não esquecer. Uma, da Justiça, a nos lembrar como ela foi humilhada nestes últimos tempos, a outra, dos candangos, como foram nossos irmãos ......... eles que acorreram como se fosse a terra da promissão os........e anônimos a construíram com entusiasmo da esperança e do patriotismo.

Durante muitos anos protestamos contra o descaso com que a Praça dos 3 Poderes era tratada. O museu da cidade inacabado, a casa de chá .............., os carros que nela circulam livremente como se fossem pedestres.........

Agora, com Sarney na Presidência e Aparecido no governo de Brasília, pensamos reabilitá-la. Concluir o museu............. Dar à praça um ar mais festivo........

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Coronel Affonso IV: Toniquinho JK

Em 1952, tanto Juscelino Kubitschek como Israel Pinheiro, deputados federais, já defendiam a interiorização da capital do Brasil. Seria em Minas Gerais. JK defendia que o local fosse no Triângulo Mineiro, Israel preferia mais a Oeste. A ideia não era simpática aos cariocas, que perderiam o status de Distrito Federal.

Foi no interior de Goiás, no dia quatro de abril de 1955, durante a campanha para presidente da República, que a proposta de construir a capital no Planalto Central ganhou força. Em Jataí, coube a um jovem, Toniquinho (Antônio Soares Neto), fazer a pergunta sobre a construção da nova capital.

Pergunta feita, JK respondeu que sim: cumpriria a Constituição Federal, que determinava a interiorização da capital do Brasil. Tudo isto é relembrado pelo coronel Affonfo Heliodoro dos Santos, 94 anos, em conversa com o blog. Junto com a pergunta, alguém lembrou que o sonho de Dom Bosco também poderia ser traduzido como a construção de uma nova cidade no coração do Brasil. Foi a união do fato popular com a mística religiosa.

O plano de governo de JK durante o ano de 1955 tinha 30 metas e um desafio: a construção de Brasília. Eleito pelo PSD, assumiu em 1956 e deu início às obras.

De Toniquinho, poucos sabem o destino. Ele é um próspero advogado de 75 anos com escritório em Goiânia e em Jataí. Seu cartão de visitas tem um selo com a imagem do presidente Bossa Nova e ele passou a assinar Toninquinho JK.

sábado, 26 de setembro de 2009

Maura II: A resistência no Núcleo Bandeirante

A pedagoga Maria Maura Figueiredo é a guardiã da memória do padre Roque. Sabe tudo sobre a vida do padre e mais ainda sobre o Núcleo Bandeirante, onde vive desde 1960. Entre fotos e anotações, Maura mostra a pequena publicação com informações sobre o padre.

Ordenado sacerdote em 1947, foi indicado para uma paróquia em Bagé (RS), depois foi para Araxá (MG), seguiu para Vitória (ES) e, em 1956, quando JK iniciou a construção de Brasília, foi para Goiânia e de lá para o Núcleo Bandeirante, indicado pelo padre Virgínio Fistarol, que era o inspetor na época. Os salesinaos foram a primeira ordem religiosa a desembarcar em Brasília.

No começo, o padre morou no hotel Dom Bosco. Maura conta que o padre as vezes comentava como tinha sido a vida no hotel: um caos.

“O quarto era coletivo, não havia privacidade, era um entra e sai”. O empresário Ildeu Oliveira, da construtora ENAU, ficou amigo do padre, e o levou para morar em um dos quartos do alojamento da empresa, perto do aeroporto e perto do Núcleo Bandeirante.

Na primeira igreja do Núcleo, de madeira, o padre dava aulas para as crianças. Não havia colégio nem professores. Ele foi o primeiro professor.

Maura recorda também que o padre era muito amigo de Garcia Neto, jornalista, fundador do jornal Núcleo Bandeirante, em 1961. Ao lado de outros pioneiros e junto com o padre Roque, Garcia Neto defendia a fixação do Núcleo Bandeirante contra a vontade do governo federal, na época o presidente era Jânio Quadros.

“De vez em quando algumas casas eram queimadas para assustar os moradores e fazer com que desistissem de ficar no Núcleo. As pessoas diziam que era coisa do governo”, comenta Maura e acrescenta: “vi muito corre-corre por aqui”.

Amanhã, domingo, Maura vai avisar na missa das 10 horas que estamos buscando mais depoimentos, mais cartas, mais memórias. Quem tiver histórias para contar pode entrar em contato conosco ou navegar no blog e deixar um comentário sobre o início de Brasília. Estamos aguardando!

Maura I: A vida no Núcleo Bandeirante

Maria Maura Figueiredo chegou em Brasília aos 10 anos de idade. Era o dia 16 de outubro de 1960. Vinha do interior de Minas Gerais: Divinolândia, que virou município em 1962, banhada pelo rio Tocantins e de vocação rural, com cerca de sete mil habitantes. Desembarcou com os pais, lavradores esperançosos e cinco irmãos. Foram para o Núcleo Bandeirante. O pai conseguiu emprego na chácara de uma família japonesa. 

“Trabalhou a vida toda, nunca teve carteira do trabalho assinada. Morreu sem aposentadoria”, recorda Maura, hoje pedagoga aposentada.

Família religiosa, se aproximou da Paróquia São João Bosco, do padre Roque Valiati Baptista, um pioneiro em Brasília. Chegou no dia 18 de abril de 1956, no meio da poeira da seca que iniciava, e foi direto para o Núcleo Bandeirante, onde havia 50 casas de madeira e o prédio da Novacap.

O padre Roque foi quem acolheu a família de Maura. Ele, menina, foi trabalhar na igreja, de onde nunca se afastou.

“Ele ajudava, mas não dava nada de graça. Não deixou que ficássemos dependentes dele”. O padre ensinou a pescar.

Maura mostra uma foto do presidente Juscelino Kubistchek ao lado do padre e a dedicatória de JK:

“Ao prezado amigo Padre Roque com um abraço do Juscelino”. Era o dia dez de junho de 1962. 


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Coronel Affonso III: Zé Aparecido teve visão

Sobre os governadores que passaram por Brasília o coronel Affonso Heliodoro dos Santos prefere não fazer comentários. Mas faz uma ressalva: “o Zé Aparecido teve visão, conseguiu o tombamento de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade e com isso preservou a cidade”.

Também elogia Elmo Serejo, que foi prefeito de Brasília. “Ele fez uma grande obra, que é o Parque da Cidade”. E adverte: “Brasília está sendo ameaçada pela expansão imobiliária”.

Aos 94 anos de idade, o coronel dá expediente diário no Instituto Histórico e Geográfico de Brasília, que preside. Antes, coordenou o Memorial JK por 16 anos.

Coronel Affonso II: o projeto da W3 era outro

O coronel Affonso Heliodoro dos Santos era um verdadeiro coringa no governo de Juscelino Kubitschek. Ele acumulava os cargos de subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República, chefe do Serviço das Metas Econômicas do Governo e chefe do Serviço de Interesses Estaduais.

Quando JK foi para o exílio em Paris, em 1964, o coronel permaneceu no Rio de Janeiro, ia visitá-lo eventualmente. Mas quando dona Sarah voltou para o Brasil para ficar ao lado da filha, Márcia, que estava doente, o coronel ficou dois meses com JK para não deixá-lo sozinho.

“Sinto muitas saudades daquele tempo, era uma época, mais romântica, mais saudável”, revela o coronel, que hoje preside o Instituto Histórico e Geográfico de Brasília.

Ele está casado há 53 anos com Conceição, a quem chama de Sãozita, tem três filhos, 11 netos e seis bisnetos. Completou com 94 anos em abril, cumpre expediente diário no Instituto e tem uma agenda cheia de compromissos. Esperamos uma semana para entrevistá-lo.

Cercado por livros, fotos, cartas e documentos sobre Brasília, o coronel Affonso recorda que a avenida W3 não era para ser assim, como a conhecemos. “A frente deveria ser na W2, o comércio deveria estar voltado para lá. A W3 seria os fundos, por onde circulariam os carros. Mas o Israel Pinheiro abriu um escritório lá, o acesso pela W2 ainda não estava pronto, ele abriu uma porta para a W3 e a partir daí o projeto foi alterado”, revela a testemunha da história de Brasília. Isto foi na altura da quadra 508 Sul.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Coronel Affonso I: o telegrama de JK



Um dia depois de deixar o Brasil, com seus direitos políticos cassados, o presidente Juscelino Kubitschek desembarcou em Madrid para fazer uma conexão para Paris. Da Espanha enviou o seguinte telegrama para o coronel Affonso Heliodoro dos Santos:

“Affonso, Deus te pague.” Madrid, nove de junho de 1964.

Em econômicas palavras, disse tudo.

Um mês depois, já em Paris, JK enviou uma afetuosa carta ao coronel, onde revelava que sentia saudades da rotina do trabalho. O coronel era o primeiro a despachar com o presidente, antes das seis horas, e o último a se despedir, sempre depois da meia noite.

“Juscelino dormia pouco, cinco horas no máximo. E eu menos ainda”, relembra o coronel para logo acrescentar: “Tinha que ser assim, se não Brasília não ficaria pronta em cinco anos”.

Uma revelação escapa enquanto relembra o convívio com o presidente JK: “sonho com ele todas as noites”.

O coronel Affonso Heliodoro dos Santos, 94 anos, nasceu em 16 de abril em Diamantina- um Domingo de Ramos, e ficou órfão de pai aos sete, justamente no dia de seu aniversário. Na data em que o pai partiu para sempre o menino Affonso começou a trabalhar por total necessidade. Eram sete crianças que a viúva precisava criar.

O coronel nos recebeu hoje no Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, que preside e dá expediente diário, sempre à tarde. Nesta quinta-feira o coronel nos reservou 30 minutos, porque tinha uma reunião logo após, mas acabou nos brindando com uma hora de agradável conversa.

Muitas são as recordações históricas do coronel. O blog vai publicar o resultado desse emocionante encontro ao longo dos próximos dias.

Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer na Espanha

O arquiteto Oscar Niemeyer está hospitalizado no Rio de Janeiro para a realização de vários exames. Aos 101 anos, Niemeyer prepara uma edição especial de sua revista “Nosso Caminho” para os 50 anos de Brasília, em 2010. No mesmo dia de sua internação, o Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer, na Espanha, é destaque no noticiário ao receber a visita do ator Brad Pitt. O blog faz o registro: conheça o centro e saiba o que Pitt foi fazer lá.

Centro Cultural

O Centro Internacional Cultural Oscar Niemeyer é um grande espaço arquitetônico em construção em construção em Avilés, nas Astúrias, Espanha. Esse é o primeiro trabalho do Oscar Niemeyer na peníncula ibérica. O centro incluirá um auditório, um prédio para exposições, torre de turismo e edifício de usos múltiplos, bem como um grande espaço ao ar livre, onde as atividades culturais se realizarão regularmente. Grandes espaços livres de intervenções caracterizam muito bem a obra de Niemeyer, como mostra Brasília e o recente Museu da República.

Além da sua dimensão cultural, o Centro Internacional Cultural Oscar Niemeyer de Avilés tem um elemento ambiental muito importante, a parte central de um longo processo de regeneração urbana que modificará o aspecto da cidade. O projeto ajudará a limpar o rio Avilés e eliminará o trânsito pesado da área do porto, convertendo os espaços em áreas esportivas e lúdicas. A área é chamada agora de “isla de la innovación” (a ilha da inovação).

Espera-se que o centro seja um gerador de talento, conhecimento e criatividade, bem como faça a promoção de conteúdos locais. Em dezembro de 2007, a Fundação Oscar Niemeyer organizou o Primeiro Fórum Mundial de Centros Culturais Internacionais em Avilés (também conhecido como o G8 da Cultura): Lincoln Center de Nova Iorque, o Centro Barbican de Londres, a Casa de Ópera de Sydney, o Centro Georges Pompidou de Paris, a Biblioteca da Alexandria, o Fórum Internacional de Tóquio, o Centro Cultural de Hong Kong e o Centro Cultural Óscar Niemeyer.

O Centro Niemeyer colaborará também com a Escola de Economia de Londres, e com o Teatro Old Vic de Londres.


Brad Pitt visita o centro Niemeyer

O ator Brad Pitt visitou hoje, 24 de setembro, junto com vários arquitetos, a localidade espanhola de Avilés, no norte da Espanha, para ver as possibilidades de participar do projeto arquitetônico "Ilha da Inovação", do Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer. Pitt também esteve acompanhado pelo diretor da Fundação Oscar Niemeyer, Natalio Grosso, e a conselheira da Cultura, Mercedes Álvarez.

Pitt disse estar "entusiasmado" com este inovador projeto e mostrou um especial interesse por "tudo o que tem a ver com a sustentabilidade". Assim disse a prefeita da cidade, Pilar Varela, após ver com o ator e vários arquitetos de sua equipe nas obras que estão sendo realizadas como parte do projeto "Ilha da Inovação".

"Ele está interessado em apoiar o projeto, tanto na parte cultural quanto na arquitetônica", afirmou a conselheira, e informou que falaram de "possíveis vinculações", mas especificou que estas questões "serão determinadas ao longo do tempo".

Varela explicou que "uma parte fundamental" de um dos projetos que o estúdio arquitetônico do ator tem em Nova Orleans é "a sustentabilidade", e indicou que isso é o que se procura com a "Ilha da Inovação", que estará pronta em julho de 2010.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O sonho de Dom Bosco


Em 30 de agosto de 2010 o Colégio Dom Bosco fará 50 anos. A mesma idade de Brasília. Dom Bosco foi a primeira escola particular a vir para a nova capital.

Foi antes da inauguração, em 1958. A escola ficava na Candangolândia. Na inauguração, foi oficialmente transferida para o endereço onde está até hoje, na avenida W3 Sul.

O colégio faz parte do imaginário de Brasília, afinal foi Dom Bosco quem sonhou na noite de 30 de agosto de 1883, logo após a chegada dos Salesianos em Niterói (RJ), que o Brasil teria grandes riquezas ocultas e um desenvolvimento futuro na região do Planalto Central. O sonho de Dom Bosco seria concretizado pelas mãos de Juscelino Kubitschek. Dom Bosco faleceu em 1888, com 72 anos, e foi declarado santo na Páscoa de 1934.

A visita

Hoje cedo fomos recebidas na escola pelo secretário Normando, que logo reuniu um grupo entusiasmado por recuperar as cartas enviadas e recebidas na escola. Os padres Schiavo e Jacy, a pedagoga Dircinha e o assistente Rafael auxiliaram no que puderem. Agora sabemos que quase toda a documentação do colégio está em Barbacena (MG), no Centro Salesiano, onde Érica promete localizar material de interesse do blog. O Centro tem como diretor o padre Alfredo de Melo. Alguma coisa, no entanto, ainda está guardada na residência dos padres, em Brasília.

O primeiro “caderno de crônicas”, de 1961, com o registro das visitas feitas pelos inspetores está lá. Tivemos acesso. A primeira crônica, cuja publicação foi autorizada pelo padre Jacy, será postada no blog em breve. Aguardem.

No final de semana, resultado do esforço de Dircinha, vamos conversar com dona Maura, pioneira, que é a memória dos Saleasianos na paróquia do Núcleo Bandeirante.

Inauguração

A inauguração do colégio contou com a presença do presidente JK, do prefeito de Brasília, Israel Pinheiro, do arcebispo Dom José Newton e do quinto sucessor de Dom Bosco, padre Renato Ziggiotti. Ao encerrar a cerimônia, o presidente Juscelino disse:

“Eu quero saudar, nos Salesianos que vêm conosco colaborar nesta hora, os homens que vão compor a moldura do quadro de Brasília, dando-lhe a beleza, a graça e o encanto das cidades que não ficaram apenas nas suas criações materiais, mas que, pela força do espírito, também se impuseram à admiração e ao apreço das gerações. Nós estamos aqui assistindo a uma solenidade tão singela: é o nascimento de algo novo, de uma nova era para o Brasil, é a mocidade de Brasília reunida pelas mãos dos Salesianos para começar esta marcha nova que amanhã vai mostrar ao Brasil quanta coisa se tinha ainda a realizar e fazer neste país”.

domingo, 20 de setembro de 2009

A grande família Silva

Dona Doca, a matriarca, ensina generosidade

Dona Doca e seu marido Ernesto são exemplos de generosidade. Souberam retribuir com acolhimento toda a felicidade que conquistaram com a mudança para Brasília em 1960. Doze filhos, sendo oito biológicos e quatro adotados, Doca, que foi batizada Neli de Castro, casou com Ernesto Silva no Rio de Janeiro e levou no enxoval o menino Pelezinho. A mãe morrera e o pai estava doente. A família de Doca resolveu acolher o menino e a noiva levou o garoto para criar como filho. Assim fizeram com mais três crianças, criadas junto com os oito nascidos durante o feliz casamento do casal que é exemplo de solidariedade e companheirismo.

Por intermédio do senador Leopoldo Tavares da Cunha Melo, natural de Cabo (PE), e eleito pelo estado do Amazonas, a família migrou para a nova capital. Ernesto foi trabalhar na Segurança do Senado, Doca ficou com a missão de educar as crianças. Chegou com oito, logo seriam 12 e houve uma época que havia 19 pessoas para comer e dormir no apartamento da SQS 409.

Pelezinho, o primogênito, mostrava vontade para o trabalho e vocação para o samba. Assim que ganhou tamanho, foi trabalhar como engraxate no Senado, tempos depois seria motorista e hoje é funcionário público aposentado. Bem antes, alegrou o Carnaval de Brasília. No final da década de 60 trouxe para a cidade músicos famosos e as mulatas do Sargenteli. Uma delas, Marli, acabou morando também com a família Silva por quatro meses e de lá só saiu para casar. Hoje vive em Vitória.

Netos são mais de 50, bisnetos oito e a família não pára de crescer. No aniversário de 80 anos de dona Doca, há três anos, só de parentes diretos eram mais de 130 pessoas no salão de festas do Clube da Câmara dos Deputados.

Uma vida longa e feliz que cabe numa lata de biscoito Aymoré. Vânia, a primeira filha a nascer em Brasília, em 1960, abre a lata de lembranças preciosas e vai mostrando cartinhas, cartões postais, muitas fotos, bilhetes, lembranças que estão bem presentes na memória de dona Doca, que nem precisa vasculhar a lata para falar sobre uma vida inteira de generosidade e declarar: “Sou uma mulher feliz!”

A lata de biscoitos Aymoré


A lata de biscoitos Aymoré é uma relíquia da família. Lá de dentro saem cartas, fotos, cartões postais, registro de nascimento, bilhetes... Foi de lá que pegamos cartões postais de Nira, jornalista, escrevendo para a família desde Cusco, Peru, em 1979. Este era um destino clássico para aventureiros nos anos de chumbo que o Brasil experimentava.

Também é de Nira a cartinha escrita no verso de uma cópia do curriculum do marido, correspondente da Associated Press em Denver, Estados Unidos, em 1981. Nira já praticava o reuso de materiais. Na carta ela avisa que não estará em Brasília para o Natal.

sábado, 19 de setembro de 2009

O título eleitoral de Niemeyer é de Brasília


O jornalista Silvestre Gorgulho abriu uma antiga pasta estilo 007 e de dentro dela tirou relíquias em sépia. Cartas manuscritas e outras datilografadas do arquiteto de Brasília, Oscar Niemeyer. Numa delas, que reproduzimos logo abaixo, Niemeyer agradece e rejeita a festa de aniversário que estava sendo preparada para ele pelo amigo José Aparecido, então governador do Distrito Federal. O arquiteto faria 79 anos naquele dezembro de 1987. Estará com 102 no final desse ano de 2009.

Silvestre, mineiro de São Lourenço, atual Secretário de Cultura do governo do Distrito Federal, querido amigo que criou o jornal mensal Folha do Meio Ambiente, tem mais correspondências na sua 007: cartas de Henfil e desenhos do próprio, cartão de Natal de dona Sarah, bilhetes de Niemeyer e um documento confirmando a transferência do título eleitoral de Oscar Niemeyer do Rio de Janeiro para Brasília.

O Serviço Público Eleitoral do Distrito Federal, no protocolo número 4818, informa que o novo título é da Zona 653 e que o domicílio do arquiteto fica na QI 5, conjunto 19, casa 7, no Lago Sul. A casa fica na mesma rua das embaixadas da Argélia e de Camarões. O documento é de 14 de novembro de 1985. A transferência do título de Niemeyer fazia parte da estratégia de lançá-lo candidato a deputado federal ou senador por Brasília. O projeto não foi adiante e Niemeyer nunca buscou o título.

O aniversário que não foi festejado

Rio de Janeiro, 13 de novembro de 1987

Prezado amigo José Aparecido:

Hoje voltei a pensar nas comemorações que você com tanta generosidade vem programando para o meu aniversário e nos amigos que o cercam, colaborando nessa iniciativa.

E resolvi, um pouco tarde infelizmente, tomar uma deliberação e dizer francamente porque delas não vou participar.

Primeiro, é um problema de consciência. Afinal muito brasileiros que por maiores feitos as mereciam, não as receberam. Segundo, em corolário, porque não me sinto com direito para tantas honrarias.

Na verdade, meu amigo, passei pela vida como outro homem qualquer. Nada de excepcional. Os mesmos problemas de trabalho e subsistência, de sonhos, tristezas e fantasias.

Se trabalhei muito foi por ter como ofício um trabalho que me atraiu e apaixonou pela vida afora e se o desempenhei a contento foi porque o destino para isso contribuiu.

Não vejo portanto razão válida para tantas homenagens, que agradeço por sabê-las de pura, invariável e recíproca amizade.

Confesso, caro amigo, que meu desejo é passar meu aniversário em completo anonimato. Data que, a meu ver, não deve entusiasmar ninguém.

Um abraço

Oscar

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Aguardando o coronel Affonso Heliodoro dos Santos

Todos escrevem ao coronel

O coronel Affonso Heliodoro dos Santos conheceu Juscelino Kubitschek ainda menino. Ele foi aluno de dona Júlia, mãe de JK. Na década de 30 começou a trabalhar ao lado daquele que viria a ser o presidente Bossa Nova. Naquele tempo, Affonso servia no Hospital do Exército, onde JK era médico. A partir de então formaram uma parceria que se estendeu até a trágica morte do presidente em 1976. Coube ao coronel a iniciativa de zelar pelo Memorial Juscelino Kubitschek, erguido em 1983, o que fez até 1996. Agora, preside o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Aos 93 anos de idade, dá expediente no local todas as tardes.

Cabe a sua secretária, Agnês, a tarefa de ler os e-mails que são enviados ao coronel e selecionar os compromissos que considera mais importantes. É por esse critério que estamos aguardando uma conversa com o coronel para o dia 24 de setembro, quinta-feira, às 16 horas. Nosso objetivo é ter acesso às inúmeras cartas trocadas entre o coronel e JK- e também com dona Sarah, que conferem humanidade à história de Brasília. Adoentado, explica Agnês, o coronel não pode ter uma agenda pesada, os compromissos devem ser distribuídos ao longo dos dias para não cansá-lo.

O coronel é um autêntico pioneiro. Participou com JK de todas as etapas da construção de Brasília. Nascido em Diamantina, em 1916, o coronel perdeu cedo o pai, morto em uma diligência em Salinas, onde era delegado, e como JK, foi criado pela mãe.

Entrou para a Polícia Militar de Minas Gerais e, ainda aspirante, encontrava com Juscelino, já prefeito de BH, na casa de dona Júlia. Logo depois de Juscelino assumir o governo de Minas, no início da década de 50, foi chefe do Gabinete Militar e nunca mais se separou de JK.

Acompanhou com Jucelino, ainda governador, a construção do Palácio das Mangabeiras. Na passagem do governo para Bias Fortes, quando JK foi eleito presidente, ficou, a pedido dele, no governo de Minas para conduzir a cerimônia de transferência simbólica da capital para Ouro Preto em 21 abril, numa homenagem a Tiradentes. O evento virou tradição.

Terminada a cerimônia, foi para o Rio de Janeiro, onde assumiu a Terceira Subchefia do Gabinete Civil da Presidência da República, órgão de importância estratégica para JK, ao qual se vinculavam os ministérios da Agricultura, do Trabalho e o Dasp.

Escritor, o coronel tem sete obras publicadas: “De Bolívar a Kubitschek - O despertar da América Latina”, de 2003, “Rua da Glória - História de um menino”, em duas edições de 1994 e 2002, “O Memorial JK - Um monumento e centro de cultura”, de 1996, “Luas de minha caminhada”, de 2001, “JK, exemplo e desafio”, de 2005, também em duas edições, e “O dragão da lua e a ninfa Sirinx”, de 2008. E tem pronta e não publicada a obra “Histórias de JK - Um bate-papo de Diamantina ao Memorial”.

domingo, 13 de setembro de 2009

Conversando com o empresário Ildeu de Oliveira

O dono das cartas

O ano era o de 1957. Ildeu procurou o dr. Israel Pinheiro na sede da Novacap, no Rio de Janeiro, e perguntou se ainda havia obras para construir em Brasília, e ele imediatamente respondeu que sim e escreveu uma carta endereçada ao dr. Vasco, que também era da Novacap e já estava em Brasília. As cartas foram juntando as pessoas e ajudando a construir a cidade e a história.

Com dois sócios, Ildeu fretou um avião monomotor. Em pleno vôo, o comandante consultou colegas sobre a localização de Brasília e foi informado que ficava entre Planaltina e Formosa. Depois de voarem por duas horas, aproximadamente, o comandante disse que só estava vendo o Cerrado!

Então, resolveu descer em Formosa e lá foi informado por um sargento da Aeronáutica que Brasília ficava entre Planaltina e Luziânia. Também disse que havia um barracão grande, com telhado de alumínio. Sendo assim, aterrissaram no local onde hoje é o atual aeroporto- a pista ainda estava sendo asfaltada. Porém, um militar não autorizou que o avião ficasse ali e foi feito novo vôo. O avião subiu para descer em uma pista de terra próxima ao Catetinho.

Ao aterrissaram no local indicado o grupo encontrou o dr. Vasco e entregou a carta de Israel Pinheiro, que disse estar tudo certo. Eles poderaim vir para Brasília trazendo máquinas de marcenaria porque no momento as obras só eram de madeira.

Em outubro, Ildeu entregou as cinco primeiras casas de madeira construídas, onde era a sede da Novacap e hoje é a Candangolândia. Uma delas foi a residência de Bernardo Sayão. Depois, Ildeu construiu a primeira escola de Brasília, Júlia Kubitsckek, também na Candangolândia, e as cinco primeiras casas do Lago Sul, ondo morou Israel Pinheiro, e ainda o Colégio Elefante Branco.

“-Todo mundo chegava com muita esperança, animado, porque havia trabalho. Trabalhávamos 24 horas, à noite um gerador iluminava as ferramentas e ninguém parava”, recorda Ildeu visivelmente saudoso na tarde do último dia 11, com o Sol a castigar o Cerrado e anunciando a primavera. A cadela da raça Golden Retriever, dengosa, deitada no chão da varanda da ampla casa no Parque Way, também acompanhava a narrativa do dono.

Além de muitas lembranças na memória, Ildeu tem uma pastinha com fotos, recortes de jornais e várias cartas manuscritas e datilografadas. A maioria traz a assinatura do presidente Juscelino Kubitschek e de dona Sarah. Uma relíquia. Era o tempo em que as pessoas escreviam longas correspondências, uma linguagem delicada e, ao mesmo tempo, rebuscada, gramática impecável. Papel de seda, envelope com as cores da bandeira e selo dos Correios. Dá saudades.

Cartas em seda

Uma carta de JK recorda o avô de Ildeu, quem ajudou financeiramente o então estudante de Medicina para que pudesse parar de trabalhar nos Telégrafos, à noite, e tratar da tuberculose que se instalava em seu pulmão. Durante seis meses o avô de Ildeu depositou alguns mil réis no banco da Província, na mineira Araguari. Outra carta cumprimenta Ildeu por seu aniversário. Pisciano típico das águas de março- um verdadeiro sonhador.

Em 1976, logo após a morte trágica de JK, chega uma cartinha de dona Sarah informando que estava distribuindo aos amigos do presidente algumas pequenas lembranças, que sabia serem muito importantes naquele círculo de amizades que se fechava.

Conversando com a engenheira Veridiana Bragança da Silva

A primeira professora

Veridiana nasceu na Fazenda Soihem de Baixo, perto da atual Reserva Biológica de Águas Emendadas, em 1937. A família mudaria anos depois para Planaltina, um vilarejo com três ruas. O pai abriu um pequeno comércio de secos e molhados. Eram cinco filhos educados pela “mulher mais sábia do mundo”, como definiu Maria, enfermeira, irmã de Veridiana.

Conversamos com as irmãs no feriado de 7 de setembro, no apartamento onde vivem na 203 Sul.

Duas mulheres pioneiras e à frente de seu tempo. Veridiana cursou Magistério na escola das freiras francesas em Formosa. Recebeu o diploma em 1956.

“-Cartas? Não tenho nenhuma. A gente não escrevia, não tinha como enviar a correspondência naquela época. Mas eu tenho a primeira carteira de trabalho de professora da época da inauguração de Brasília”. Conta orgulhosa. Carteira assinada no dia 23 de abril de 1960, dois dias após a inauguração da nova capital por Juscelino Kubitschek. Em 1968, Veridiana inovaria mais uma vez ao ingressar no curso de Engenharia Civil da UnB, já casada e grávida de mais uma filha.

A identidade

Ela também é portadora de uma cédula de identidade inusitada. Apesar de ter nascido em 1937, 23 anos antes de Brasília, sua identidade diz que é natural da cidade. Uma informação que sempre provoca incredulidade.

A irmã Maria também deixou Planaltina na mesma época que Veridiana, enquanto Brasília era construída, e conseguiu emprego como enfermeira do hospital do Núcleo Bandeirante, a Cidade Livre.

Veridiana morava com outras professoras em uma casa da avenida W3 Sul e lecionava na primeira escola de Brasília, Júlia Kubitschek, construída em poucos meses na atual Candangolândia. Tinha até piscina.

O pioneirismo está no sangue da família. O avô, Viriato de Castro, foi mateiro da Expedição Cruls- que demarcou o quadrilátero no século 19. Menor de idade, seu nome não entrou na lista oficial daqueles que ajudaram a desbravar o Cerrado.

Enquanto Brasília era construída e JK residia no Catetinho, Veridiana lotava um ônibus com alunos de Planaltina e vinha mostrar a futura capital aos estudantes. Descansavam as margens do córrego Vicente Pires, bem perto do Catetinho, e voltavam no final do dia pela estrada de terra. Tempos que ficaram na memória dos pioneiros.